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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Nossa despedida de D. Arns, um quase entrevistado

Foto: Instituto Vladimir Herzog
Hoje perdemos Dom Paulo Evaristo Arns, um dos maiores brasileiros que já tivemos, um incansável batalhador pela dignidade humana, pelo amor ao próximo, pela melhoria das situações materiais e espirituais dos mais desfavorecidos. Ele quase foi entrevistado para o documentário, mas desisti de levar a solicitação adiante, pois seria exigir demais de quem já vinha debilitado e cujo relacionamento com a Operação Camanducaia era muito indireto. Foi pessoalmente difícil tomar essa decisão e deixar escapar a chance de conhecer alguém que admiro desde a adolescência.

Segundo um dos entrevistados do filme, a Operação Camanducaia foi uma das causas do surgimento da Pastoral do Menor. O episódio, que deixou a sociedade da época perplexa, colocou na pauta de discussões a questão da infância marginalizada. Sensibilizado com a precariedade das condições de vida das crianças e adolescentes das ruas de São Paulo, D. Evaristo Arns nomearia Dom Luciano para comandar a Pastoral, que surgiria em 1977, três anos após a operação.

Ainda que tenhamos muito a avançar, são inegáveis os avanços trazidos por essa ação, não apenas pela ajuda direta a milhares de jovens nas últimas décadas, mas também pela contribuição indireta para outras conquistas, como a Pastoral da Criança (1983) e o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (1990).

A luta desses homens e mulheres, juntamente com um enorme contingente da sociedade brasileira, permitiu que retirássemos grande parcela da nossa infância e juventude da situação de barbárie total.

Da luta contra pobreza ao ecumenismo, dos direitos humanos à democracia, D. Evaristo Arns é reverenciado por sua fundamental contribuição aos difíceis avanços da sociedade brasileira em sua trajetória para a civilidade.

A equipe do documentário Operação Camanducaia rende homenagens a esse grande homem, por seu destemor, sua entrega, sua coerência, sua mensagem, sua vida.

Viva o Cardeal da Esperança!

Tiago Rezende de Toledo
Diretor

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Antes do corpo, extermine a infância (décadas de prática)

Morto aos 10 anos.

Negaram uma moradia digna, negaram o convívio pleno com os pais, negaram a escola. Negaram carinho, negaram orientação, negaram amparo. Negaram brinquedos, negaram roupas, negaram comida. Negaram bicho de estimação, negaram pipa, negaram video-game, negaram lápis de colorir, negaram....

Agora lhe negam a infância.

Roubam-lhe a idade e lhe cobram o juízo, a consciência, o bom senso, a responsabilidade e a maturidade. Nem se fale da decência. Que seja homem e morra como bicho, como criança já não é mais possível.

Não é do menino que se deve cobrar discernimento, mas do adulto. Sobretudo do adulto formado, treinado e no exercício da sua profissão.  Que conhece as leis e os códigos morais, que tem a experiência e a vivência, que tem raciocínio desenvolvido e bom senso em seus julgamentos. É dele que devemos esperar a maturidade. No entanto, deste se aplaude a ação instintiva e visceral. A este é permitido ser criança inconsequente e violenta. É dele a infância que do outro foi roubada.

Morto aos 10 anos. Não foi o primeiro e não será o último.

Em 1973 já eram exterminados como ratos, como criança já não era mais possível.

Jornal do Brasil - 06/06/1973: Garoto espancado por PM morre no hospital

"Morreu ontem no Hospital Emilio Ribas o garoto Carlos Alberto de Araújo, de 13 anos, que há cerca de uma semana recebeu de um soldado da PM uma cacetada para ensiná-lo a ser mais cortês com um policial da corporação - em quem o menino esbarrou acidentalmente."

Folha de São Paulo - 03/06/1973: Menino de dez anos suspeito de furtar carro é morto por PM em SP
Jornal do Brasil - 06/06/1973