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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um ônibus não tão tão distante assim...



Enquanto parte da sociedade vacila entre proibir e devassar os ônibus cheios de jovens pobres, ou até mesmo se lhes dá uma coça preventiva de acordo com a cara que possuírem, nós continuamos na luta para contar a história de um outro ônibus também cheio de meninos pobres. Mas este não ia para a praia. Na verdade, poucos sabem aonde ia. Foi há 40 anos e o que aconteceu naquela noite continua um mistério.

Estamos na fase de montagem e ainda há longas batalhas pela frente. A pós-produção, com seus inúmeros tratamentos, digitalizações, retoques, complementos, direitos de imagens, rezas, santos e milagres, ainda demandará um enorme trabalho.

E você poderá nos ajudar nessa jornada... mais novidades em breve!


sábado, 23 de maio de 2015

PMs são condenados a 96 anos de prisão por obrigar 17 adolescentes a pular em rio

Foto: Brasil Post

O episódio foi em 2006. Confundidos com um grupo que praticava furtos no Bairro do Recife, 17 adolescentes foram obrigados pelos PMs a pular no rio. Dois não sabiam nadar e morreram.

Evidentemente, mesmo se fossem do grupo que furtava, a condenação dos policiais seria a mesma, pois infringiram a lei que prometeram proteger.

Confira as matérias completas do Brasil Post (http://bit.ly/1JJWr8v)  e Diário de Pernambuco (http://bit.ly/1BiiFrd).





quarta-feira, 1 de abril de 2015

Maioridade penal e a espiral do tempo

E choveu por quatro anos, onze meses e dois dias.
Não adianta, mais hora ou menos hora, o tempo que parecia passado dá uma voltinha e aparece de novo à nossa frente. E ficamos meio tontos, porque ele parece igual, mas está um pouco mudado. Simultaneamente, reconhecemos e estranhamos aquilo que se nos apresenta. A inesquecível matriarca do romance 100 anos de solidão,  Úrsula Iguarán-Buendía, passou várias vezes por esse sentimento, ao ver a sucessão de seus descendentes repetirem comportamentos e até experiências de gerações anteriores. Aprendemos com ela que esse mundo em espiral confunde, mas negá-lo é uma tolice, afinal é externo a nós. Temos que lidar com essas voltas do tempo, com esses problemas meio parecidos/meio diferentes, mas para os quais as soluções antigas já não se aplicam. É dessa forma estranha, com uma boa pitada de déjà vu, que nos reaparece a questão da redução da maioridade penal.

Muita coisa nos divide, mas parece que há um raro consenso nacional: o Brasil tem muito de Macondo. Assim como no livro de García Márquez, coisas muito estranhas acontecem por aqui. Um país que rouba de crianças e adolescentes o direito à escola, à saúde, à alimentação, ao vestuário decente, à uma casa digna e também de brincar, quer também lhe roubar a liberdade. É muito bizarro a sociedade brasileira querer punir as vítimas de sua incompetência social.

A questão vai além, pois sequer a segurança pública melhoraria com a redução da maioridade penal. Num post anterior (http://www.operacaocamanducaia.com.br/2014/10/uma-noite-ha-40-anos.html), comentamos como não há uma única estatística ou estudo que comprove a eficiência em se prender adolescentes na redução dos índices de criminalidade. E é fácil entender por que: apenas 1% dos crimes hediondos são cometidos por menores de 18 anos e menos de 3% dos internos na Fundação Casa respondem por esse tipo de crime. Ou seja, praticamente todos crimes violentos são cometidos por adultos. Por outro lado, não há nenhuma dúvida entre os estudiosos que é altamente danosa a convivência de internos por infrações leves com os das graves, pois contribuem decisivamente para que aquele jovem que deveria ser "reeducado" se torne um adulto criminoso. O que provavelmente não aconteceria, se fosse o caminho não fosse o encarceramento.

O que precisamos ver neste momento em que esse assunto volta à tona de maneira terrível, com a tramitação da PEC na CCJ da Câmara, é que a situação não foi gerada somente pela eleição de uma bancada de deputados ultraconservadora. Não é uma situação nascida há um ou dois anos. Não estamos apenas na página seguinte de um livro ruim, mas na verdade estamos experimentando um novo ciclo de ascensão do pensamento conservador especialmente avesso aos problemas sociais e altamente preconceituoso nas questões comportamentais. Já passamos por ciclos assim anteriormente. A Operação Camanducaia não teria acontecido da maneira que foi, não fosse o sentimento que seus autores tinham de que agiam em consonância com o desejo da maioria dos seus contemporâneos. Veremos no filme que, felizmente, a sociedade tem limite para suportar o terror (mesmo que secretamente o tenha desejado antes).

Este ciclo irá passar, mas não sozinho. Depende da força de reação da sociedade, especialmente pela mobilização dos estudiosos, das igrejas e dos grupos (políticos ou não) que lutam pelos direitos humanos. Mas fiquemos atentos, este bumerangue do tempo não desaparecerá em três ou cinco anos; ao contrário, pode fincar raízes e gerar um ciclo longo, sofrido e amargo para nosso país, especialmente para os grupos com menos poder de voz.

Com ilustração de Paulo Sayeg