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terça-feira, 29 de abril de 2014

A participação da imprensa nas memórias de Camanducaia


Hoje a TV Record levou ao ar a primeira de uma série de matérias que sairão sobre a Operação Camanducaia. Na efeméride dos 40 anos do episódio, pelo menos três outros grandes veículos de Minas e São Paulo farão o mesmo nos próximos meses. Serão abordagens muito distintas do documentário e trarão seus próprios significados. Um deles é a revelação das engrenagens da imprensa brasileira, tão apegada a datas redondas, deixando vazios entre elas.

Nos últimos 40 anos, a imprensa quase não tocou no assunto. Houve uma pequena matéria do Estado de São Paulo na efeméride dos 20 anos da Operação, em 1994, fazendo gancho com a notícia de outra ação de "limpeza"social. Também houve lembranças em artigos isolados de alguns jornalistas que cobriram direta ou indiretamente a história. Mais recentemente, o caso surgiu foi ligeiramente citado em algumas reportagens, especialmente do UOL, quando o atual presidente da CBF, José Maria Marin, tomou posse. Ele tinha ligações com Rubens Liberatori, apontado como mandante da Operação. De resto, o silêncio.

A boa reportagem da Record localizou a cópia de um dos processos do caso, conversou com alguns dos garotos, hoje senhores, e algumas testemunhas. Ela é muito importante por trazer a questão à tona, reviver o assunto. Quem acompanhou a história na época irá lembrar alguma coisa, comentar. Quem não sabia tomará conhecimento. E amanhã? Aguardaremos os 50, 60, 70 anos da Operação Camanducaia para a imprensa tocar no assunto novamente?

Nesses quatro de produção do documentário, conversamos com personagens fundamentais da história. Alguns faleceram após falarem conosco. Eles serão ausências significativas das reportagens que demoraram 40 anos para acontecer, especialmente para o formato clássico do jornalismo, que prega "ouvir o outro lado".

Mesmo as pessoas que aparecerão tanto nas reportagens como no filme terão participação significativamente diferente. Tanto a essência dos diálogos com elas, quanto o papel no encadeamento da história serão outros. A suposta "verdade" nem sempre é o essencial. O documentário não quer saber do "outro lado", como se os fatos possuíssem apenas duas faces. Os documentos, fotos e jornais apenas deixaram registro de um episódio. As incríveis pessoas que encontramos nos mostraram que até as percepções individuais podem ser múltiplas. Cada um de nós é tão complexo quanto a realidade que nos cerca.

Atualização às 21h15 de 30/04/2014: A segunda matéria foi ao ar hoje e estabeleceu conexões entre os métodos da repressão política e a natureza violenta da Operação Camanducaia. Amanhã, na terceira e última matéria, devem fazer análises de ordem sócio-política.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ressonâncias e Repetições


A sociedade brasileira é capaz de matar à mão um jovem por ouvir boatos que não se confirmaram. É capaz de amarrar outro ao poste e também de desaparecer com o Amarildo. Já foi capaz de Vigário Geral, da Candelária, do Rio da Guarda, do Esquadrão da Morte, da Cracolândia, da Colônia em Barbacena. E já foi capaz da Operação Camanducaia.


Post com base no artigo de Negro Belchior Jovem negro é espancado e morto por populares no Espírito Santo, recomendação de Leandro Franci.




terça-feira, 8 de abril de 2014

Juízo - um filme para nosso desconforto



Juízo (2007), de Maria Augusta Ramos, tem a força da síntese, como poucas obras conseguem. A diretora acompanha o cotidiano e os  julgamentos de crianças e adolescentes infratores, dentre eles alguns acusados de ações muito violentas. Sem entrevistas, sem números, sem imagens de arquivo. Sua câmera observa e registra o embate direto entre o Estado (representado pela juíza, promotores, agentes penitenciários e policiais) e os indivíduos (jovens e seus pais). Os defensores públicos ficam entre os dois lados. Em todos os papéis, as  personalidades se revelam nas entrelinhas.

Por mais que a edição seja uma forma de intervenção, o espectador passa pela forte experiência de ouvir os envolvidos quase diretamente, com seus argumentos, suas justificativas e seus posicionamentos frente ao passado e ao futuro, do outro ou próprio. Manifestações estas sempre num momento de tensão. No caso dos jovens, conhecemos ainda mais intensamente suas vidas e individualidades. Todos os personagens são complexos, ressaltando suas ambiguidades de valores, pensamentos e ações. Inevitavelmente essa experiência atinge o espectador no limite de suas próprias crenças.

Surpreende ainda mais o efeito quando sabemos que os garotos que vemos não são os "reais", os que estão sendo julgados, mas atores não profissionais selecionados de comunidades e contextos semelhantes aos dos acusados. Fica insinuada uma relação entre o ser e o "poderia ser". Como disseram alguns críticos, não damos pela falta dos verdadeiros protagonistas. Talvez seja o que reforce, ainda que inconscientemente, o desconforto do espectador.

Juízo consegue nos levar a refletir sobre realidades que transcendem às das pessoas envolvidas. Fazemos generalizações, mas por nossa conta, pois o filme nunca se afasta dos casos particulares. Com esse poder, tornou-se referência fundamental para entendermos as engrenagens contemporâneas que em certas circunstâncias ainda interligam crianças, adolescentes e a violência. 






segunda-feira, 7 de abril de 2014

Filmagens em 05/04/2014, entre contrastes e afinidades

Faltam poucas mas importantes pessoas para conversarmos. Neste sábado, 05/04, encontramos com algumas delas. Os momentos variaram desde a tensão à descontração. O traço comum era a força das lembranças. Era impossível a indiferença, mas havia quem nunca mais tivesse tocado no assuntos nesse 40 anos.
O encontro de duas visões sobre o mesmo local.

Entre documentos e memórias.

Entre o querer e o dever falar.

A permanência dos ausentes.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Golpe de 64 e a Operação Camanducaia

À direita, coronel Erasmo Dias, pivô de muitas histórias
do regime militar. Folha de São Paulo, 22/10/1974

A discussão sobre o Golpe de 64 corre o risco de ficar pobre, e a Operação Camanducaia auxilia a explicar por quê. A tendência a citar a polarização "esquerda x direita", "torturadores x guerrilheiros" reduz um debate que deveria ser mais denso. Ela alça para o primeiro plano o lado mais terrível do regime autoritário, mas pode ofuscar a compreensão sobre outros pontos nefastos.

Ao contrário da também clandestina e ultrarrepressora Operação Bandeirantes (OBAN), a de Camanducaia não ocorreu contra presos políticos perseguidos por suas ideias. Os jovens recolhidos no centro de São Paulo faziam parte das legiões de despossuídos e filhos de trabalhadores, massacrados por uma política que concentrou renda, incentivou a migração desordenada, estagnou salários, promoveu uma das maiores devastações florestais da história do Brasil, dizimou populações indígenas, perseguiu e expulsou camponeses e que devolveria à população um país destroçado pela dívida externa e pela superinflação (ver links abaixo).

Eram diferentes também os métodos e os objetivos das Operações. Os milhões de miseráveis, historicamente sem voz e imagem social, somente atraíam a atenção dos órgãos oficiais quando obstruíam vias, enfeiavam as ruas e recorriam a comportamentos julgados imorais para sobreviver.  Em suma, quando incomodavam por sua presença, geravam repúdio e precisavam ser eliminados. Não à toa, João Baptista Figueiredo, o último dos generais-presidentes, declarou que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo.

Algumas das autoridades envolvidas com a Operação Camanducaia eram peças importantes das engrenagens do regime militar. O coronel Erasmo Dias, figura conhecida da linha dura da ditadura, era o Secretário de Segurança de São Paulo. Empregados do alto escalão de sua secretaria seriam arrolados nas investigações do caso, que respingaria para o lado de muita gente graúda.  Alguns passariam pelo DOPS, revelando que o aparelho de repressão política foi utilizado para dispensar o mesmo tratamento a outros indivíduos socialmente indesejados. Em outras palavras: os grupos que mais sofreram com os fracassos das políticas públicas do regime militar também foram alvo da violência direta de seus atos.

Agora, em plena democracia, excluir esses mesmos grupos do debate sobre as ações, responsabilidades e conseqüências do fracassado governo ditatorial seria ser conivente com sua ideologia opressiva e excludente. Os nossos tempos ainda podem camuflar os fundamentos desse pensamento.

Algumas matérias sobre as consequências das políticas adotadas na Ditadura:

A concentração de renda e aumento da desigualdade:
http://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u924.jhtm


A explosão da dívida externa:
http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br/2014/03/31/em-valores-de-hoje-divida-externa-deixada-pela-ditadura-militar-atingiria-us-12-tri-quatro-vezes-a-atual/


O desmatamento e a grilagem patrocinados pelo Governo:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/07/090722_amazonia_timeline_fbdt.shtml

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/Amazonia/

Genocídio dos indígenas:
http://acritica.uol.com.br/amazonia/Manaus-Amazonas-Amazonia-Waimiri-atroari-desaparecidos_0_677332315.html

http://www.apublica.org/2013/06/ditadura-criou-cadeias-para-indios-trabalhos-forcados-torturas/

A perseguição aos camponeses:
http://www.ebc.com.br/2012/09/sdh-identifica-cerca-de-12-mil-camponeses-mortos-e-desaparecidos-entre-1961-e-1988


O presidente que preferia o cheiro do cavalo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u10538.shtml

A Operação Bandeirantes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Bandeirante