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segunda-feira, 31 de março de 2014

Em 2010, a primeira pesquisa de campo

As informações iniciais eram pouco precisas. Era necessário checar se aquela história de realismo fantástico tinha deixado vestígios nas memórias não apenas das pessoas, mas também das instituições. Nada como ir a Camanducaia e bater de porta em porta.

As primeiras paradas foram à beira da estrada. Depois de passar pela região algumas vezes, alguns pontos já estavam selecionados para serem conhecidos de perto.

Nas imediações da rodovia Fernão Dias,
possíveis locais  onde os garotos teriam passado
Nas ruas de Camanducaia, muitas pessoas nunca tinham ouvido falar da "Operação". Uma conversa amistosa com dois policiais militares na praça central não obteve resultado muito diferente. Será que a história não teria sobrevivido nem como anedota das autoridades locais? Não era impossível, afinal os policiais que acompanharam o caso na época não eram da cidade e há muito não moravam mais lá. 
 
Existiriam os arquivos de 74?
Aos poucos, uma pequena roda se formou, os que passavam ao lado logo paravam para dar palpites. Um senhor na casa dos 70 anos se lembrou do caso dos "meninos pelados" e citou nomes que poderiam colaborar. Cruzamos as novas informações com as que já estavam conosco e começamos a localizar testemunhas importantes. Nascia o documentário.

Prefeito em 74, Seu Gentil Faria lembrava detalhes da história.  
Ele faleceria em 2011, aos 97, antes das filmagens.
Algumas pessoas não se conformavam. Por que falar disso tantos anos depois? Outros se deleitaram com a chance de contar aquela velha história. Envolvidos novamente pela impressão do absurdo das cenas que presenciaram, não deixavam de encontrar um lado cômico. Brasileiros.

Por outro lado, ninguém volta 40 anos ao passado e se restringe às recordações de um bando de garotos nus e surrados. Inevitavelmente, lembram de si, como eram, o que viveram desde então. Pode ser uma experiência indesejada para alguns.

Nem todas portas se abriam facilmente para o passado.
Apesar de muito difícil de encontrar, a estreita trilha de informações revelou as primeiras pessoas a falar sobre o episódio. Começavam também as primeiras contradições.

sexta-feira, 28 de março de 2014

No princípio, um livro com histórias inacreditáveis

Lido em 2006, o livro Infância dos Mortos parecia uma coletânea de histórias inventadas mas contadas de modo cruelmente real. José Louzeiro mescla jornalismo e literatura, realidade e ficção, para narrar os caminhos de Dito e seus amigos das ruas. Imersos num cotidiano de violência e morte, a mais impressionante de suas aventuras, envolvendo quase uma centena de garotos, não podia ser verdade. Mas era. Por sua causa, Louzeiro largou o jornalismo para se tornar escritor. 

Infância dos Mortos virou filme, mas os fatos passados em Camanducaia não participaram dele. Pouquíssimas pesquisas e referências em jornais tocaram o tema nas últimas quatro décadas. Com o tempo, o episódio foi se apagando das memórias pessoais, de imprensa e coletiva.


Uma história à beira do real e da qual ninguém se lembra. Tinha que virar documentário.




Em 2006: Um sebo, um livro, a incredulidade.

Blog ou Ultrassom?

E cá estamos, na reta final, após quatro anos de muito trabalho! Foram intensas pesquisas de campo, em jornais, em processos, conversas com muita gente, sol, chuva, mofo, pó, poeira e lama - tudo literalmente. Mas é hora de juntar forças para fechar as filmagens (falta pouquinho...), montar e finalizar o filme. Sim, ainda há muito pela frente, mas o embrião já está aí, formado, é realidade.

Este blog vai mostrar os passos finais do desenvolvimento do projeto, que até aqui teve encontros e desencontros com a sorte, mas que acima de tudo sempre teve pessoas que nele acreditaram e o apoiaram. Sem elas, este momento estaria muito distante.


A elas, o mais sincero Obrigado!





Há quem consiga ver um documentário
nesta imagem.

Imagem em Creative Commons. 

© Nevit Dilmen [CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0) undefined GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html)], undefined