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quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Golpe de 64 e a Operação Camanducaia

À direita, coronel Erasmo Dias, pivô de muitas histórias
do regime militar. Folha de São Paulo, 22/10/1974

A discussão sobre o Golpe de 64 corre o risco de ficar pobre, e a Operação Camanducaia auxilia a explicar por quê. A tendência a citar a polarização "esquerda x direita", "torturadores x guerrilheiros" reduz um debate que deveria ser mais denso. Ela alça para o primeiro plano o lado mais terrível do regime autoritário, mas pode ofuscar a compreensão sobre outros pontos nefastos.

Ao contrário da também clandestina e ultrarrepressora Operação Bandeirantes (OBAN), a de Camanducaia não ocorreu contra presos políticos perseguidos por suas ideias. Os jovens recolhidos no centro de São Paulo faziam parte das legiões de despossuídos e filhos de trabalhadores, massacrados por uma política que concentrou renda, incentivou a migração desordenada, estagnou salários, promoveu uma das maiores devastações florestais da história do Brasil, dizimou populações indígenas, perseguiu e expulsou camponeses e que devolveria à população um país destroçado pela dívida externa e pela superinflação (ver links abaixo).

Eram diferentes também os métodos e os objetivos das Operações. Os milhões de miseráveis, historicamente sem voz e imagem social, somente atraíam a atenção dos órgãos oficiais quando obstruíam vias, enfeiavam as ruas e recorriam a comportamentos julgados imorais para sobreviver.  Em suma, quando incomodavam por sua presença, geravam repúdio e precisavam ser eliminados. Não à toa, João Baptista Figueiredo, o último dos generais-presidentes, declarou que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo.

Algumas das autoridades envolvidas com a Operação Camanducaia eram peças importantes das engrenagens do regime militar. O coronel Erasmo Dias, figura conhecida da linha dura da ditadura, era o Secretário de Segurança de São Paulo. Empregados do alto escalão de sua secretaria seriam arrolados nas investigações do caso, que respingaria para o lado de muita gente graúda.  Alguns passariam pelo DOPS, revelando que o aparelho de repressão política foi utilizado para dispensar o mesmo tratamento a outros indivíduos socialmente indesejados. Em outras palavras: os grupos que mais sofreram com os fracassos das políticas públicas do regime militar também foram alvo da violência direta de seus atos.

Agora, em plena democracia, excluir esses mesmos grupos do debate sobre as ações, responsabilidades e conseqüências do fracassado governo ditatorial seria ser conivente com sua ideologia opressiva e excludente. Os nossos tempos ainda podem camuflar os fundamentos desse pensamento.

Algumas matérias sobre as consequências das políticas adotadas na Ditadura:

A concentração de renda e aumento da desigualdade:
http://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u924.jhtm


A explosão da dívida externa:
http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br/2014/03/31/em-valores-de-hoje-divida-externa-deixada-pela-ditadura-militar-atingiria-us-12-tri-quatro-vezes-a-atual/


O desmatamento e a grilagem patrocinados pelo Governo:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/07/090722_amazonia_timeline_fbdt.shtml

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/Amazonia/

Genocídio dos indígenas:
http://acritica.uol.com.br/amazonia/Manaus-Amazonas-Amazonia-Waimiri-atroari-desaparecidos_0_677332315.html

http://www.apublica.org/2013/06/ditadura-criou-cadeias-para-indios-trabalhos-forcados-torturas/

A perseguição aos camponeses:
http://www.ebc.com.br/2012/09/sdh-identifica-cerca-de-12-mil-camponeses-mortos-e-desaparecidos-entre-1961-e-1988


O presidente que preferia o cheiro do cavalo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u10538.shtml

A Operação Bandeirantes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Bandeirante

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