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terça-feira, 8 de abril de 2014

Juízo - um filme para nosso desconforto



Juízo (2007), de Maria Augusta Ramos, tem a força da síntese, como poucas obras conseguem. A diretora acompanha o cotidiano e os  julgamentos de crianças e adolescentes infratores, dentre eles alguns acusados de ações muito violentas. Sem entrevistas, sem números, sem imagens de arquivo. Sua câmera observa e registra o embate direto entre o Estado (representado pela juíza, promotores, agentes penitenciários e policiais) e os indivíduos (jovens e seus pais). Os defensores públicos ficam entre os dois lados. Em todos os papéis, as  personalidades se revelam nas entrelinhas.

Por mais que a edição seja uma forma de intervenção, o espectador passa pela forte experiência de ouvir os envolvidos quase diretamente, com seus argumentos, suas justificativas e seus posicionamentos frente ao passado e ao futuro, do outro ou próprio. Manifestações estas sempre num momento de tensão. No caso dos jovens, conhecemos ainda mais intensamente suas vidas e individualidades. Todos os personagens são complexos, ressaltando suas ambiguidades de valores, pensamentos e ações. Inevitavelmente essa experiência atinge o espectador no limite de suas próprias crenças.

Surpreende ainda mais o efeito quando sabemos que os garotos que vemos não são os "reais", os que estão sendo julgados, mas atores não profissionais selecionados de comunidades e contextos semelhantes aos dos acusados. Fica insinuada uma relação entre o ser e o "poderia ser". Como disseram alguns críticos, não damos pela falta dos verdadeiros protagonistas. Talvez seja o que reforce, ainda que inconscientemente, o desconforto do espectador.

Juízo consegue nos levar a refletir sobre realidades que transcendem às das pessoas envolvidas. Fazemos generalizações, mas por nossa conta, pois o filme nunca se afasta dos casos particulares. Com esse poder, tornou-se referência fundamental para entendermos as engrenagens contemporâneas que em certas circunstâncias ainda interligam crianças, adolescentes e a violência. 






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