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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Uma noite há 40 anos

Ilustração de Paulo Sayeg
São Paulo, 19  de outubro de 1974. Entre nove e dez horas da noite, um ônibus sai clandestinamente com 93 crianças e adolescentes. No dia seguinte, apenas 41 deles apareceriam surrados, pelados e com uma história surreal para contar. A coincidência dos 40 anos da Operação Camanducaia com o período eleitoral mais efervescente em décadas é providencial. Os nervos saltados reforçam os contrastes e nos permitem ver com clareza que, infelizmente, o episódio continua a ser emblemático de um país que custa a evoluir.

É tão fácil identificar os elementos do passado que ainda hoje reverberam, que chega a nos assustar e envergonhar. Na última segunda-feira (13/10), por exemplo, cinco jovens foram chacinados em Duque de Caxias. Vejam bem: uma noite, cinco assassinatos! Se alguém achar que isso não é significativo por si só, pode fazer uma busca simples no Google por "chacina de jovens na periferia", ou algo semelhante. Vá passando pelas páginas, pelos anos, coloque na pesquisa seu estado, sua cidade... A notícia é regularmente repetida, trocam-se apenas a data, os números e local. A Operação Camanducaia foi precursora. Com o inusitado número de 93 jovens envolvidos, é simbólica da inquebrantável confiança na impunidade. Para que fazer no varejo o que se pode fazer no atacado?

Há outras marcas fortes que se repetem. Todos esses jovens continuam anônimos para a grande população. Não há entre eles nenhuma Isabela Nardoni ou Bernardo Boldrini para ser citado no costumeiro bate-papo indignado sobre crimes. Não se ouve um "onde esse mundo vai parar?",  "o que leva alguém a fazer isso?" e nem mesmo "o fim do mundo está próximo". Claro que não esperamos um "por que fizeram isso com um garoto tão bonito?", afinal as pessoas não os acham bonitos e, mais do que tudo, "se ele morreu deve saber por quê".  Não há individualidade. São sempre "eles". A página do jornal é virada; depois da nota coberta com imagens do enterro, William Bonner chama o futebol.... não haverá rostos a esquecer até a próxima chacina. Para alguns a notícia é tão chamativa como se lhe dissessem que seu vizinho cortou a grama. Como diria a Tostines, é difícil saber se a pálida cobertura da imprensa reflete a permissividade da população, ou vice-versa. Teria sido assim em 74? Saiu alguma coisa na imprensa? Só assistindo ao documentário para saber...

Poderíamos ainda citar a "parceria" entre agentes da polícia, do judiciário, do poder executivo e também de empresários em várias dessas ocorrências. Ou os inquéritos que não apuram culpados. Ou as condições sociais e ideológicas que geram jovens desamparados e pessoas dispostas a liquidá-los. Mas nenhuma discussão é tão significativa de que a Operação Camanducaia ainda é um esqueleto no armário quanto a discussão da maioridade penal.

Há um setor enorme da população brasileira que não quer debater a questão da criança e do adolescente enquanto indivíduos com necessidades específicas. Tampouco lhes deixam brancos os cabelos as circunstâncias que expõem parcela significativa da população jovem a riscos sociais, econômicos, urbanos, morais e físicos. Pois uma questão antecederia a todas: o inevitável desvio moral de adolescentes que, sabendo-se impunes, não hesitariam em tirar a vida dos cidadãos de bem. Seriam os grandes culpados pela violência descontrolada do país, que somente poderia melhorar se eles fossem encarcerados como adultos. Essa argumentação, que estreita a compreensão de uma realidade social complexa, não consegue se sustentar dentro da própria lógica. Bastam alguns dados para demonstrar:

- Menos de 2% dos crimes contra a vida (homicídios, latrocínios) são cometidos por jovens infratores, conforme pesquisa revelada na matéria de Caco Barcellos para o Profissão Repórter.

- O número de adolescentes infratores no Brasil não atinge 1% do número total de adolescentes (Unicef).

-  "Dos crimes praticados por adolescentes, utilizando informações de um levantamento realizado pelo ILANUD na capital de São Paulo durante os anos de 2000 a 2001, com 2100 adolescentes acusados da autoria de atos infracionais, observa-se que a maioria se caracteriza como crimes contra o patrimônio. Furtos, roubos e porte de arma totalizam 58,7% das acusações. Já o homicídio não chegou a representar nem 2% dos atos imputados aos adolescentes, o  equivalente a 1,4 % dos casos."(Unicef)

- Ainda segundo o estudo da Unicef, de 53 países, sem contar o Brasil, 42 deles (79%) adotam a maioridade penal aos 18 anos ou mais. Por outro lado, o Brasil está dentre os 33% que adotam a responsabilidade penal juvenil com 12 anos ou menos. Ou seja, estamos em sintonia com a tendência mundial quanto à maioridade penal (18) e na contramão quanto à responsabilidade penal juvenil (FEBEM/Fundação Casa), quando a maioria dos países adota idades maiores que 12 anos.

Logo, a redução da maioridade teria um impacto muito limitado nos absurdos índices da violência no Brasil. No longo prazo poderia até ter um efeito inverso, ao sobrecarregar ainda mais o falido sistema carcerário e promover um indesejável convívio de adolescentes com presidiários adultos e organizações criminosas, diminuindo muito as expectativas de recuperação. Ao contrário do que se propõe, a redução da maioridade penal tem mais probabilidade de criar novos círculos de violência do que de quebrar os que existem.

Mas o que chama a atenção nessa discussão, 40 anos depois de Camanducaia, é a falta de atualização dos argumentos de debate. E isso as eleições nos ajudam a ver bem. Todos sabemos que as campanhas eleitorais prodigiosas em discussões ideias, mas algumas se superam. Em 2010, as eleições que ficarão marcadas por trazer discursos arcaicos para o centro da política brasileira, ao menos se tinha também uma disputa de números. "Vou fazer 300km de metrô pelo Brasil!", bradava um, "Mas eu vou fazer 350!" respondia o outro. Em 2014 está tudo mais raso, mais sentimental. Parece mais uma pescaria, quando cada chapa usa frases de efeito como iscas. O que importa é encher o samburá de eleitores, cada qual fisgado com seu anzol específico. Diversos candidatos, em todos os cargos das eleições de 2014, repetiram (repetem) sentenças ditas há décadas.  No que concerne à maioridade penal, imitam até mesmo os gestos, os punhos cerrados, a cara de mau. Tudo isso foi aplicado com muito mais vigor e propriedade no período da ditadura, mas não resultou num país mais seguro. Ao contrário, intensificou um ciclo de violência urbana que nasceu no fim dos anos 70 e não parou mais de crescer.



Fontes citadas:

Matéria sobre a Chacina em Duque de Caxias: http://glo.bo/1vpEE0v

Matéria do Profissão Repórter sobre jovens infratores: http://glo.bo/VmfkbF

Estudo da Unicef "Porque dizer não à redução da idade penal": http://bit.ly/11lhUST






Nesta época em 1974 também estávamos em eleições. Para o Congresso, claro. Presidente ainda esperaria 15 anos. Para quem duvida do apoio popular que gozava o governo ditatorial, saber que a ARENA, partido da situação pró-militares, conquistou 203 das 364 cadeiras de deputado é uma ducha de água fria. Quando hoje se di

terça-feira, 13 de maio de 2014

Minas: o princípio e o fim

Poderia ser diferente, mas o acaso não quis assim. Minas Gerais, o palco da Operação Camanducaia, foi o ponto de partida e está sendo o ponto de chegada das filmagens do documentário. Às vésperas das últimas diárias, encontramos em suas montanhas pessoas e histórias incríveis. Agora falta muito pouco para montarmos o quebra-cabeças.



  



 



terça-feira, 29 de abril de 2014

A participação da imprensa nas memórias de Camanducaia


Hoje a TV Record levou ao ar a primeira de uma série de matérias que sairão sobre a Operação Camanducaia. Na efeméride dos 40 anos do episódio, pelo menos três outros grandes veículos de Minas e São Paulo farão o mesmo nos próximos meses. Serão abordagens muito distintas do documentário e trarão seus próprios significados. Um deles é a revelação das engrenagens da imprensa brasileira, tão apegada a datas redondas, deixando vazios entre elas.

Nos últimos 40 anos, a imprensa quase não tocou no assunto. Houve uma pequena matéria do Estado de São Paulo na efeméride dos 20 anos da Operação, em 1994, fazendo gancho com a notícia de outra ação de "limpeza"social. Também houve lembranças em artigos isolados de alguns jornalistas que cobriram direta ou indiretamente a história. Mais recentemente, o caso surgiu foi ligeiramente citado em algumas reportagens, especialmente do UOL, quando o atual presidente da CBF, José Maria Marin, tomou posse. Ele tinha ligações com Rubens Liberatori, apontado como mandante da Operação. De resto, o silêncio.

A boa reportagem da Record localizou a cópia de um dos processos do caso, conversou com alguns dos garotos, hoje senhores, e algumas testemunhas. Ela é muito importante por trazer a questão à tona, reviver o assunto. Quem acompanhou a história na época irá lembrar alguma coisa, comentar. Quem não sabia tomará conhecimento. E amanhã? Aguardaremos os 50, 60, 70 anos da Operação Camanducaia para a imprensa tocar no assunto novamente?

Nesses quatro de produção do documentário, conversamos com personagens fundamentais da história. Alguns faleceram após falarem conosco. Eles serão ausências significativas das reportagens que demoraram 40 anos para acontecer, especialmente para o formato clássico do jornalismo, que prega "ouvir o outro lado".

Mesmo as pessoas que aparecerão tanto nas reportagens como no filme terão participação significativamente diferente. Tanto a essência dos diálogos com elas, quanto o papel no encadeamento da história serão outros. A suposta "verdade" nem sempre é o essencial. O documentário não quer saber do "outro lado", como se os fatos possuíssem apenas duas faces. Os documentos, fotos e jornais apenas deixaram registro de um episódio. As incríveis pessoas que encontramos nos mostraram que até as percepções individuais podem ser múltiplas. Cada um de nós é tão complexo quanto a realidade que nos cerca.

Atualização às 21h15 de 30/04/2014: A segunda matéria foi ao ar hoje e estabeleceu conexões entre os métodos da repressão política e a natureza violenta da Operação Camanducaia. Amanhã, na terceira e última matéria, devem fazer análises de ordem sócio-política.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ressonâncias e Repetições


A sociedade brasileira é capaz de matar à mão um jovem por ouvir boatos que não se confirmaram. É capaz de amarrar outro ao poste e também de desaparecer com o Amarildo. Já foi capaz de Vigário Geral, da Candelária, do Rio da Guarda, do Esquadrão da Morte, da Cracolândia, da Colônia em Barbacena. E já foi capaz da Operação Camanducaia.


Post com base no artigo de Negro Belchior Jovem negro é espancado e morto por populares no Espírito Santo, recomendação de Leandro Franci.




terça-feira, 8 de abril de 2014

Juízo - um filme para nosso desconforto



Juízo (2007), de Maria Augusta Ramos, tem a força da síntese, como poucas obras conseguem. A diretora acompanha o cotidiano e os  julgamentos de crianças e adolescentes infratores, dentre eles alguns acusados de ações muito violentas. Sem entrevistas, sem números, sem imagens de arquivo. Sua câmera observa e registra o embate direto entre o Estado (representado pela juíza, promotores, agentes penitenciários e policiais) e os indivíduos (jovens e seus pais). Os defensores públicos ficam entre os dois lados. Em todos os papéis, as  personalidades se revelam nas entrelinhas.

Por mais que a edição seja uma forma de intervenção, o espectador passa pela forte experiência de ouvir os envolvidos quase diretamente, com seus argumentos, suas justificativas e seus posicionamentos frente ao passado e ao futuro, do outro ou próprio. Manifestações estas sempre num momento de tensão. No caso dos jovens, conhecemos ainda mais intensamente suas vidas e individualidades. Todos os personagens são complexos, ressaltando suas ambiguidades de valores, pensamentos e ações. Inevitavelmente essa experiência atinge o espectador no limite de suas próprias crenças.

Surpreende ainda mais o efeito quando sabemos que os garotos que vemos não são os "reais", os que estão sendo julgados, mas atores não profissionais selecionados de comunidades e contextos semelhantes aos dos acusados. Fica insinuada uma relação entre o ser e o "poderia ser". Como disseram alguns críticos, não damos pela falta dos verdadeiros protagonistas. Talvez seja o que reforce, ainda que inconscientemente, o desconforto do espectador.

Juízo consegue nos levar a refletir sobre realidades que transcendem às das pessoas envolvidas. Fazemos generalizações, mas por nossa conta, pois o filme nunca se afasta dos casos particulares. Com esse poder, tornou-se referência fundamental para entendermos as engrenagens contemporâneas que em certas circunstâncias ainda interligam crianças, adolescentes e a violência. 






segunda-feira, 7 de abril de 2014

Filmagens em 05/04/2014, entre contrastes e afinidades

Faltam poucas mas importantes pessoas para conversarmos. Neste sábado, 05/04, encontramos com algumas delas. Os momentos variaram desde a tensão à descontração. O traço comum era a força das lembranças. Era impossível a indiferença, mas havia quem nunca mais tivesse tocado no assuntos nesse 40 anos.
O encontro de duas visões sobre o mesmo local.

Entre documentos e memórias.

Entre o querer e o dever falar.

A permanência dos ausentes.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Golpe de 64 e a Operação Camanducaia

À direita, coronel Erasmo Dias, pivô de muitas histórias
do regime militar. Folha de São Paulo, 22/10/1974

A discussão sobre o Golpe de 64 corre o risco de ficar pobre, e a Operação Camanducaia auxilia a explicar por quê. A tendência a citar a polarização "esquerda x direita", "torturadores x guerrilheiros" reduz um debate que deveria ser mais denso. Ela alça para o primeiro plano o lado mais terrível do regime autoritário, mas pode ofuscar a compreensão sobre outros pontos nefastos.

Ao contrário da também clandestina e ultrarrepressora Operação Bandeirantes (OBAN), a de Camanducaia não ocorreu contra presos políticos perseguidos por suas ideias. Os jovens recolhidos no centro de São Paulo faziam parte das legiões de despossuídos e filhos de trabalhadores, massacrados por uma política que concentrou renda, incentivou a migração desordenada, estagnou salários, promoveu uma das maiores devastações florestais da história do Brasil, dizimou populações indígenas, perseguiu e expulsou camponeses e que devolveria à população um país destroçado pela dívida externa e pela superinflação (ver links abaixo).

Eram diferentes também os métodos e os objetivos das Operações. Os milhões de miseráveis, historicamente sem voz e imagem social, somente atraíam a atenção dos órgãos oficiais quando obstruíam vias, enfeiavam as ruas e recorriam a comportamentos julgados imorais para sobreviver.  Em suma, quando incomodavam por sua presença, geravam repúdio e precisavam ser eliminados. Não à toa, João Baptista Figueiredo, o último dos generais-presidentes, declarou que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo.

Algumas das autoridades envolvidas com a Operação Camanducaia eram peças importantes das engrenagens do regime militar. O coronel Erasmo Dias, figura conhecida da linha dura da ditadura, era o Secretário de Segurança de São Paulo. Empregados do alto escalão de sua secretaria seriam arrolados nas investigações do caso, que respingaria para o lado de muita gente graúda.  Alguns passariam pelo DOPS, revelando que o aparelho de repressão política foi utilizado para dispensar o mesmo tratamento a outros indivíduos socialmente indesejados. Em outras palavras: os grupos que mais sofreram com os fracassos das políticas públicas do regime militar também foram alvo da violência direta de seus atos.

Agora, em plena democracia, excluir esses mesmos grupos do debate sobre as ações, responsabilidades e conseqüências do fracassado governo ditatorial seria ser conivente com sua ideologia opressiva e excludente. Os nossos tempos ainda podem camuflar os fundamentos desse pensamento.

Algumas matérias sobre as consequências das políticas adotadas na Ditadura:

A concentração de renda e aumento da desigualdade:
http://noticias.uol.com.br/politica/2009/03/31/ult5773u924.jhtm


A explosão da dívida externa:
http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br/2014/03/31/em-valores-de-hoje-divida-externa-deixada-pela-ditadura-militar-atingiria-us-12-tri-quatro-vezes-a-atual/


O desmatamento e a grilagem patrocinados pelo Governo:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/07/090722_amazonia_timeline_fbdt.shtml

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/Amazonia/

Genocídio dos indígenas:
http://acritica.uol.com.br/amazonia/Manaus-Amazonas-Amazonia-Waimiri-atroari-desaparecidos_0_677332315.html

http://www.apublica.org/2013/06/ditadura-criou-cadeias-para-indios-trabalhos-forcados-torturas/

A perseguição aos camponeses:
http://www.ebc.com.br/2012/09/sdh-identifica-cerca-de-12-mil-camponeses-mortos-e-desaparecidos-entre-1961-e-1988


O presidente que preferia o cheiro do cavalo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u10538.shtml

A Operação Bandeirantes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Bandeirante

segunda-feira, 31 de março de 2014

Em 2010, a primeira pesquisa de campo

As informações iniciais eram pouco precisas. Era necessário checar se aquela história de realismo fantástico tinha deixado vestígios nas memórias não apenas das pessoas, mas também das instituições. Nada como ir a Camanducaia e bater de porta em porta.

As primeiras paradas foram à beira da estrada. Depois de passar pela região algumas vezes, alguns pontos já estavam selecionados para serem conhecidos de perto.

Nas imediações da rodovia Fernão Dias,
possíveis locais  onde os garotos teriam passado
Nas ruas de Camanducaia, muitas pessoas nunca tinham ouvido falar da "Operação". Uma conversa amistosa com dois policiais militares na praça central não obteve resultado muito diferente. Será que a história não teria sobrevivido nem como anedota das autoridades locais? Não era impossível, afinal os policiais que acompanharam o caso na época não eram da cidade e há muito não moravam mais lá. 
 
Existiriam os arquivos de 74?
Aos poucos, uma pequena roda se formou, os que passavam ao lado logo paravam para dar palpites. Um senhor na casa dos 70 anos se lembrou do caso dos "meninos pelados" e citou nomes que poderiam colaborar. Cruzamos as novas informações com as que já estavam conosco e começamos a localizar testemunhas importantes. Nascia o documentário.

Prefeito em 74, Seu Gentil Faria lembrava detalhes da história.  
Ele faleceria em 2011, aos 97, antes das filmagens.
Algumas pessoas não se conformavam. Por que falar disso tantos anos depois? Outros se deleitaram com a chance de contar aquela velha história. Envolvidos novamente pela impressão do absurdo das cenas que presenciaram, não deixavam de encontrar um lado cômico. Brasileiros.

Por outro lado, ninguém volta 40 anos ao passado e se restringe às recordações de um bando de garotos nus e surrados. Inevitavelmente, lembram de si, como eram, o que viveram desde então. Pode ser uma experiência indesejada para alguns.

Nem todas portas se abriam facilmente para o passado.
Apesar de muito difícil de encontrar, a estreita trilha de informações revelou as primeiras pessoas a falar sobre o episódio. Começavam também as primeiras contradições.

sexta-feira, 28 de março de 2014

No princípio, um livro com histórias inacreditáveis

Lido em 2006, o livro Infância dos Mortos parecia uma coletânea de histórias inventadas mas contadas de modo cruelmente real. José Louzeiro mescla jornalismo e literatura, realidade e ficção, para narrar os caminhos de Dito e seus amigos das ruas. Imersos num cotidiano de violência e morte, a mais impressionante de suas aventuras, envolvendo quase uma centena de garotos, não podia ser verdade. Mas era. Por sua causa, Louzeiro largou o jornalismo para se tornar escritor. 

Infância dos Mortos virou filme, mas os fatos passados em Camanducaia não participaram dele. Pouquíssimas pesquisas e referências em jornais tocaram o tema nas últimas quatro décadas. Com o tempo, o episódio foi se apagando das memórias pessoais, de imprensa e coletiva.


Uma história à beira do real e da qual ninguém se lembra. Tinha que virar documentário.




Em 2006: Um sebo, um livro, a incredulidade.

Blog ou Ultrassom?

E cá estamos, na reta final, após quatro anos de muito trabalho! Foram intensas pesquisas de campo, em jornais, em processos, conversas com muita gente, sol, chuva, mofo, pó, poeira e lama - tudo literalmente. Mas é hora de juntar forças para fechar as filmagens (falta pouquinho...), montar e finalizar o filme. Sim, ainda há muito pela frente, mas o embrião já está aí, formado, é realidade.

Este blog vai mostrar os passos finais do desenvolvimento do projeto, que até aqui teve encontros e desencontros com a sorte, mas que acima de tudo sempre teve pessoas que nele acreditaram e o apoiaram. Sem elas, este momento estaria muito distante.


A elas, o mais sincero Obrigado!





Há quem consiga ver um documentário
nesta imagem.

Imagem em Creative Commons. 

© Nevit Dilmen [CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0) undefined GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html)], undefined